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“THE POPE” DE FERNANDO MEIRELLES NO NEW YORK TIMES

10.05.2018

By Jason Horowitz

9 de maio de 2018

Diário de Roma

Figurantes nas ruas em torno do Vaticano, participando das filmagens de um filme da Netflix sobre a relação entre os papas Francisco e Bento XVI durante a transição papal de 2013. Jason Horowitz/The New York Times

ROMA — Cardeais pareciam estar em toda parte, mexendo no celular enquanto ficavam sentados em ciclomotores estacionados, acariciando cachorros e usando babadores de plástico sobre suas cruzes peitorais enquanto aguardavam na fila do almoço em uma pequena rua nas imediações do Vaticano.

Florence Cooper, uma turista de Vancouver, se deparou com um grupo deles na segunda-feira, trajando suas batinas pretas com botões escarlate, faixas e solidéus.

“Foto?” pediu a Sra. Cooper, de 69 anos. Eles colocaram os braços sobre os ombros dela enquanto o marido tirava uma foto.

Impressionada com sua boa sorte, ela agradeceu aos italianos por sua gentileza e ergueu o medalhão de São Cristóvão que trazia no pescoço, pedindo uma bênção. Foi quando Fausto Maria Rivalta, de 64 anos, interveio.

“Nós somos figurantes de um filme,” explicou. O sorriso desapareceu do rosto da Sra. Cooper. “Eu pensei que vocês fossem cardeais,” disse ela.

Muita gente também pensou como ela.

Esta semana, um grupo de eminências falsas transitou pelas ruas ao redor do Vaticano para as filmagens de um filme da Netflix sobre a relação entre o Papa Francisco, interpretado pelo seu sósia galês Jonathan Pryce, e Bento XVI, interpretado por Anthony Hopkins, durante a transição papal de 2013.

Roma é a sede da Igreja Católica Romana, e padres e freiras fazem parte desse cenário tanto quanto as ruínas antigas, igrejas barrocas e, ultimamente, o amontoado de pilhas de lixo e buracos nas ruas. (E às vezes, lixo nos buracos nas ruas.) Mas os cardeais são aves raras nas ruas da cidade, pois costumam se manter recolhidos em seus apartamentos, automóveis e escritórios da Cúria.

Removendo fiapos do traje de Jonathan Pryce, que interpreta o Papa Francisco. Jason Horowitz/The New York Times

Até mesmo algumas autoridades do Vaticano ficaram um tanto desconcertados.

Paul Tighe, um bispo de verdade e funcionário que ocupa o segundo lugar no alto escalão do Pontifício Conselho para a Cultura do Vaticano, vinha caminhando pela rua com um romance debaixo do braço e ficou espantado ao ver todos aqueles chapéus vermelhos.

“Por um momento,” disse ele, “tentei ver se reconhecia alguns deles.”

Do lado de fora de um restaurante, Renato Friscotti, de 72 anos, que estava num pequeno grupo de falsos cardeais, explicou como conseguiu o trabalho.

“Eles nos escolheram porque temos o tipo apropriado para o papel ”, disse Friscotti. “Temos um longo nariz aquilino. E somos bem velhos.

Friscotti é um veterano na função de figurante eclesiástico. Na série da HBO “O Jovem Papa”, ele interpretou o papa Celestino V, que, como Bento XVI, fez o que Dante chamou de “a grande recusa” e se aposentou do cargo em 1294. (Ao contrário de Bento XVI, que se aposentou em 2013 e vive confortavelmente nos Jardins do Vaticano, perto de Francisco, o humilde Celestino foi arrastado para fora de seu eremitério e aprisionado por seu sucessor, o papa Bonifácio VIII, que temia sua investidura como antipapa.

Friscotti, um técnico de telefonia aposentado, disse que posar com peregrinos e ocasionalmente dar uma bênção aos turistas é o mínimo que ele e seus amigos podem fazer. “Nós deixamos que eles pensem o que querem pensar ”, disse ele. “Isso os deixa mais felizes.”

Alguns figurantes disseram que eles foram orientados a retratar um cardeal de verdade durante o conclave histórico que elegeu Francisco. Renato Abbate, um escritor de 74 anos, disse que um daqueles cardeais de verdade, ao passar por ele e seus amigos, pareceu estar avaliando “os concorrentes”.

Alfiero Toppetti, um figurante de 76 anos, saindo de um restaurante em Roma. Jason Horowitz/The New York Times

Eles achavam que tinham mais afinidade com o Sr. Hopkins, que interpreta Bento XVI, dizendo que ele era mais realista.

“Ele cumprimenta todos nós e, outro dia, apertou 150 mãos”, disse Friscotti.

Um figurante usando um colarinho de padre acrescentou que Pryce, que interpreta Francis, também era um cara legal e lembrou que quando estavam filmando uma cena de jantar no Palácio Real de Caserta, ele “ficou jogando pão por toda parte”. O Sr. Pryce, segundo ele, também tem a vantagem de ser muito parecido com Francisco.

“Um verdadeiro sósia,” disse Enzo Massacci, 67 anos, funcionário da estrada de ferro aposentado, que também é um sósia de um cardeal Borgia.

Depois do almoço, a equipe de produção liderou uma procissão de falsos prelados, guardas suíços, freiras e guardas do Vaticano, passando sob os arcos do Passetto di Borgo e atravessando a Via dei Corridori. Eles viraram à direita na Via della Conciliazione, uma rua larga que desemboca na Basílica de São Pedro, onde turistas e peregrinos os filmaram e acenaram para eles.

Os figurantes contornaram a colunata de Bernini pelo lado de fora e pararam na rua, do lado oposto às três tendas sob as quais as estrelas do espetáculo e a equipe se amontoavam.

Alfiero Toppetti, 76 anos, vestido de cardeal, encostou na grade e ficou olhando para as tendas enquanto um falso clérigo falava com ele num tom monótono.

“No cinema, quanto menos você falar,” disse ele, “melhor.”

Ator veterano que atuou em vários filmes italianos e programas de variedades na televisão, Toppetti ficou parado enquanto um maquiador arrumava seu cabelo e seu solidéu e explicou que, como ele era de Assis, terra de São Francisco, não conseguiu resistir à chance de interpretar um cardeal, ainda que o pagamento não fosse lá grande coisa. “Nós fazemos isso por amor,” disse ele. “Um sacrifício.”

Um grupo de falsos cardeais e freiras caminham pelas ruas de Roma. Jason Horowitz/The New York Times

À medida que os seguranças se esquivavam dos carros em alta velocidade e tiravam alguns excêntricos da rua (“Eu sou um amigo de Jesus. Tenham um bom dia”), a equipe de produção começou a separar os falsos cardeais de outros figurantes que interpretavam turistas e jornalistas.

Assim como os jornalistas de verdade, os falsos ficaram descansando nas bases das colunas próximas à sede da Congregação para a Doutrina da Fé, onde Bento XVI trabalhou como prefeito antes de sua eleição como papa.

Em meio aos falsos repórteres, Thomas Williams, um ex-padre que agora é o correspondente da Breitbart News em Roma, destacava-se vestindo um terno escuro, gravata listrada e óculos de armação grossa.

“Eu estou interpretando um jornalista,” disse ele, explicando que havia se juntado à produção como consultor de roteiro, um trabalho que ele já tinha realizado para o filme “A Paixão de Cristo” de Mel Gibson, através do qual ele conheceu Stephen K. Bannon.

Williams, um conservador e grande admirador do papa Bento XVI, admitiu no passado que Breitbart “não amava” Francisco, e disse que garantiu que essa produção tratasse Bento XVI de forma justa. “Algumas coisas precisavam ser mudadas,” afirmou, enquanto corria para a sua marca.

Ele e os outros atores se prepararam para filmar uma cena em que Friscotti e Toppetti caminhavam logo atrás do Sr. Pryce, no papel de Francisco. Antes de começar a filmagem, um dos seguranças me levou até as tendas do outro lado da rua.

Ao meu lado estava Pryce, que de fato era idêntico a Francisco – o cardeal Jorge Mario Bergoglio antes de receber suas vestes brancas. Ele riu com a equipe, falando do microfone nas suas vestimentas, e eu tirei uma foto de uma mulher passando um rolinho para remover fiapos da sua mozeta preta.

Um membro da equipe exigiu que eu apagasse a foto.

“Aqui”, proclamou o membro da equipe, à sombra da Basílica de São Pedro, o Santo Ofício e a casa do Papa Francisco, “é o domínio da Netflix”.

Confira a matéria original do New York Times AQUI.